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Monday, October 23, 2006

B¶ Veneza

Há cidades românticas e cidades românticas; propícias ao romance e românticas de arquitectura, escrita pintura, you name it.

Costuma dizer-se que os animais adquirem a personalidade dos seus donos; o meu é um gato, independente, inteligente e com a mania que é sexy.

Acredito que as cidades moldam as pessoas que lá vivem e no fundo são o espelho de quem lá vive.

Veneza, é um imenso espelho, não só por ter água por todo o lado, mas também porque reflecte muito bem quem lá habita. Os gondoleiros são a publicidade mais enganosa que já vi na minha vida. Uma pessoa entra na gôndola com promessas de romantismo e vai-se a ver e é só fogo de vista. Preservativos a boiar nos canais, um cheiro que não se pode, conversas de engate já mais que conhecidas, e paga-se um balúrdio pela voltinha. É preferível andar a pé ou a nado.

Toda a atmosfera de Veneza, rima beleza. Ruas lindas, pontes lindas e homens ainda mais lindos de morrer e ressuscitar por mais.

Mas lá está, é mais um pacote enganador. Gosto de folhear as revistas e ver aqueles modelos enxutos [não desdenhando os húmidos dos anúncios a perfumes], gosto que alguns parecidos com os das revistas se venham meter comigo, mas depois está-se mesmo a ver, não têm nada naquelas bonitas e metro-sexuais cabeças.

A Bienal de Beleza, com a sua arte às toneladas, Tintorettos a cada golpe de tacão e igrejas fabulosas, vidro de Murano é um grande festival de fogo de artifício chinês [vêm em caixas pequenas por 25€] mas acaba num instante.

Os homens venezianos são assim, muito fogo, artifício em doses superiores e ao fim de meia hora acabou-se.

[Compram-se mais caixas!]

É a Cidade Flirt.

Tuesday, October 17, 2006

#26 William

Porque é que os ingleses têm tudo diferente do resto dos europeus? Porque é que conduzem do lado errado da estrada, porque é que têm um sistema métrico e monetário diferente do nosso; porque é que têm um país coberto de nevoeiro; porque é que têm os Monthy Python e o Coupling?!


Tantas perguntas e mais que se podiam fazer...

Em trânsito no aeroporto da Ryanair [Stansted] pensei a sério sobre a mania que este empertigado povo têm de fazer tudo diferente.

Tinham passado poucos dias do atentado denunciado, e tudo era um reboliço. No email que a Ryanair me tinha enviado, descreviam-se inúmeros objectos que não podia transportar comigo, e medidas exactas para a minha bagagem.

[Fiquei espantada por não terem dito qual era a medida permitida de soutien.]

Estava eu já sentada no avião, quando um senhor, com a farda do handling, se aproxima do meu lugar e pergunta:

- Menina Joana Pandora?

[Sou-vos sincera, não percebi porque perguntou; com a rigidez inglesa era impossível eu estar no lugar errado.]

- Sim.

- Faça o favor de me acompanhar, há um problema com a sua bagagem.

Oops, pensei, depois corrigi: tenho amigos nesta companhia de aviação por isso deve ser brincadeira, talvez um convite para voar no cockpit.

No entanto sou conduzida para fora do avião, onde me aguarda um autocarro só para mim e para o funcionário que me acompanha.

O senhor com corte de cabelo à Beckham [já demodé], começa a topografar-me descaradamente.

Deixo estar, afinal não é a primeira vez que sou medida por ingleses, em Alvor é o bacon com ovos de cada dia.

Chegamos à zona da triagem das bagagens, nas catacumbas do aeroporto, e um segurança privado pede-me para abrir a Samsonite.

Explica-me que um objecto potencialmente perigoso não pode ser identificado pelo raio X.

Desfaço a mala e descubro que a minha máquina de depilação é o perigo.

- Ok, i confess i intend to shave the commander to death.

Os dois tipos riem-se e pedem-me para fechar a mala.

Voltamos para o avião e no caminho o handler continua a medir. Não resisto.

- Are you measuring me in inches or centimetres?

- I beg your pardon?

- Are you measuring me in inches, centimetres or are you driving on the wrong side of the road?
- It depends... Which
side do you think it's wrong?

Tipo com personalidade, boa capacidade de resposta, empertigado [dessa forma também] e não houve motivo para dizer hands off na minha próxima visita a Londres.

Wednesday, October 11, 2006

Sportv+Pandora

Já estavam com saudades da menina? Não sei se estavam ou não, mas também posso dizer-vos que eu estava com saudades de escrever e de todas as provocações implícitas neste espaço, que vos digo me relaxa muito.

Volto à carga porque um dia destes descobri que as Produções Fictícias se apoderaram do meu nome e transpuseram-no para a SPORTV!

A Pandora vai passar a ser uma investigadora entre a Lara Croft e o James Bond, carregada de tecnologia até à boca para analisar casos de futebol.

[Vai ter pouco trabalho, vai]

Segundo a notícia que li, a Pandora da ficção é uma provocadora e abre a caixa [onde é que eu já vi isto] para mostrar todos os males do futebol.

Boa sorte homónima.

Nós por cá vamos voltar ao ataque no regsito que já nos é habitual.

Monday, April 17, 2006

#25 João Francisco

Italian do it better... Esta frase é basilar e identificativa daquele belo carro que é o Fiat 600. Cresci a ouvir esta frase e deixem que vos diga que o poder da sexualidade não se mede pela nacionalidade. Não é por um tipo ser italiano ou mesmo sumério que o faz melhor ou pior, é tudo uma questão de imaginação e de vontade. Podemos agarrar-nos à regueifa, meter os pés no tejadilho, o que interessa mesmo é com quem estamos e como o queremos fazer, o resto são uns pormerores de tuning*.

O João Francisco não tinha um Fiat 600, era antes possuidor de um Opel Corsa 1.5 TD comercial (preto). Não vou por-me para aqui a gabar as qualidades de aceleração do carro (afinal isto não um artigo da Automotor), mas debruçar-me sobre o espaço físico da viatura.

João era um rapaz muito bem comportado, calado como um rato e que só se maifestava quando achava que se estava a mover em terrenos sobejamente conhecidos. Uma noite de muita chuva e lama em tudo estava alagado, sentiu-se à vontade para se fazer ao mar.

Estivemos num bar em que o barman (amigo dele) não nos estava a tentar embebedar mas antes afogar em caipirinha, sem bóia de salvação à vista.

Saímos do bar e numa jogada muito elaborada [- Para onde vamos? - Para o meio do monte?!] acabámos numa floresta à antiga portuguesa: carvalhos, sobreiros e castanheiros e chuva que nunca mais acabava. De vez em quando relanceava o olhar lá para fora à procura de Noé no meio da enxurrada mas nem sinal do senhor.

Mesmo com frio lá fora as coisas aqueceram, e nestas coisas quem não tem cão caça com gato, resolvemos aquecer-nos da forma mais simples: despojando-nos da roupa, cobrindo-nos de suor e afins.

Partido o cinzeiro e o retrovisor olhámos um para o outro e rimos à gargalhada...
O João Francisco acabou por vender o carro este fim de semana, com o cinzeiro partido, confessou-me em surdina.

[Se os portugueses o conseguem fazer dentro de um Corsa comercial, porque raio é que dizem que os italianos o fazem melhor?]

* Para os menos atentos tuning significa afinação.

Wednesday, April 12, 2006

A¶ Porto

Os nativos de uma cidade nunca saberão tanto dela como as pessoas que para lá vão viver.

Nasci numa aldeia do Minho, cercada por campos e matas de pinheiros, corri, saltei e explorei tudo o que podia com os meus irmãos e gostava imenso da vida que tinha.

Quando entrei na Faculdade, no Porto, tive que me mudar para lá e como sou uma pessoa de paixões, apaixonei-me logo por aquela cidade.

Lembro-me, com saudade, das vezes em que me metia no comboio para passar o fim-de-semana na casa dos meus pais e chorava ao olhar para as pontes do meu Porto. O meu irmão mais velho pensava de uma forma muito diferente, dizia que a melhor coisa que existia no Porto era a placa designativa da nossa terra.

Em tudo fui diferente dos meus irmãos, mulher, rebelde e cosmopolita.

Mudei de casa várias vezes o que fez com que conhecesse várias áreas da cidade e como detesto autocarros andava sempre a pé (ainda hoje quando quero ir a algum sítio e não tenho pressa, desloco-me a pé) e descobria muitas coisas que os comuns tripeiros ainda hoje desconhecem. Cheiros, pessoas, casas, cantos e recantos, tasquinhas, restaurantes refundidos no cinzento granítico da cidade e no colorido restaurado da Sé e da Ribeira.

O Porto foi sem dúvida o meu Amor à primeira vista e o único substantivo masculino que me foi fiel durante estes anos todos.

Os homens vão e vêem mas o Porto vai-me ficar sempre no coração.

Wednesday, April 05, 2006

#24 César

Quando se começa um relacionamento é tudo muito bonito. Investigadores da Universidade do Uzbequistão do Meio, trouxeram à luz do dia informações inéditas e fascinantes que explicam este fenómeno: a culpa disto é das hormonas que fomentam a paixão.

Para além disto, atrevo-me a dizer que, com o passar do tempo conjugal, muito escasso no início e enfadonhamente lento com o passar do tempo, as duas partes da relação começam a ser acometidas por um sentimento territorial exacerbado.

Eu explico: começam os primeiros ataques de ciumeira, e a marcação de território é implacável. Quando começarem a ouvir "meu amor", "minha querida", aliás tudo o que meta um pronome possessivo, é o primeiro dos sinais de marcação de território aka mija de gato.

Mas há pior...

O César era um moço composto, industrial de sucesso, vestimenta topo de gama, confiança ainda mais topo e carro lá em cima nos oito mil metritos. Não havia nada que conseguisse abalar a altitude a que o senhor se movia. O João Garcia (o alpinista português que até 2010 se propõe a escalar as oito montanhas do mundo acima dos oito mil metros) considerou escalar o ego do César mas, o BES, não alinhou nisso; achou que era possível escalar o K1 mas nunca a personalidade imbatível do meu amigo.

Quando se é assim tão tão (só lhe faltava o badalo para ser um sino) há certas coisas que descambam.

Já estávamos com seis meses de relacionamento e eu começava a ver algumas coisas que não podiam ser defeitos; eram más demais para se enquadrar nessa qualificação... Mania, era o que era!

E então chegou o dia do Tsunami. Havia um tipo no escritório que tinha muita piada e eu, de vez em quando lá ia falando nele. O César meteu na cabeça que o rapaz me estava a tentar escalar e vai um dia, resolveu marcar a sua posição.

Estávamos em casa, depois de um jantar super agradável e o César, começou a beijar-me o pescoço, como só ele sabia, e como me sabiam bem aqueles beijos...

Beija aqui, beija acolá e por momentos pensei que tinha uma lampreia colada ao pescoço, tal era a sucção exercida. Puxei a cabeça para trás e espetei-lhe cinco dedos em cada orelha com a palma aberta (o meu pai é que me ensinou o truque - desorienta qualquer pessoa).

- Para que é que foi isso - disse ele recuperando o equilíbrio perdido.
- Podes ter marcado as outras vacas com chupões, mas comigo nem com ferros vais lá!

[No dia seguinte: gola alta para ir trabalhar]

Friday, March 31, 2006

#23 Henrique

Sentido de humor, muito ou pouco (de preferência em doses industriais) é um condimento essencial para qualquer relação. Não é preciso que o senhor que me acompanha esteja a toda a hora a mandar piadas, mas saber encaixar piadas e mandar umas na hora certa é sempre bom.

Há mulheres que olham para os lábios, para os sapatos, para o corte de cabelo, para a paciência que os homens têm com as crianças, mas eu sou bem mais fútil: gosto que me façam rir, pronto, já disse.

Quando estava com o Henrique (não é que tenha durado muito mas foi por outras razões) fartava-me de rir. Era completamente disparatado e lembrava-se das coisas mais risíveis nos piores momentos; fazia de propósito, tenho a certeza absoluta. Sabem quando estamos naquelas situações em que não convêm rir, como os baptizados, conferências, aqueles momentos solenes cujos oradores nos olham por cima dos óculos com a ameaça de Inferno?! Pois nessas alturas ele mandava a posta e eu ia às lágrimas para não gargalhar.

Mas não se ficava por aí...

A nossa primeira vez (leram bem, vou entrar em pormenores) foi num ambiente de sonho. O Hotel Monte Prado em Melgaço tinha acabado de ser inaugurado e ele, como bom conhecedor destes locais do Portugal profundo levou-me até lá.

Já namorávamos há dois meses e ele estava a ver a vida a andar para trás. Dois meses só com beijinhos e foreplay (marmelada para os amigos roço para os mais esclarecidos) e já lhe via os olhos a saltar das órbitas; cá para nós, eu também já andava com as hormonas a praticar salto à vara.

Então fizemos uma coisa que fica sempre bem, uma queca por marcação, se bem que entre nós era mais (não amor mas) paixão por marcação.

Fizemos o check in, fomos até ao Solar do Alvarinho, bebemos duas garrafas de Reguengos de Melgaço (1º prémio nesse ano), jantámos com mais duas garrafas da mesma água (não nos fosse fazer mal a mistura) e quando chegamos ao nosso covil já íamos a rir como se o mundo acabasse no dia seguinte.

Já na cama começaram as brincadeiras, "puxa para aqui", "beija para acolá", "deixa ver o que tens aqui", "olha que giro isto" e a determinado momento, já os ânimos estavam descontrolados fomos directos ao assunto.

- Estás feliz por me ver ou isso é uma canoa no teu bolso?!

- Não é uma canoa, é uma piroga, comprida e oca.

[Comecei a rir e já vos digo que foi bem melhor com as gargalhadas!]

Wednesday, March 29, 2006

#22 Hugo

Costumo dizer que sou uma pessoa com sorte; os meus amigos dizem que sou uma cadela com muita sorte. Não nasci num berço de ouro, quanto muito foi de latão, riscado, e tive que usar os pulsos para trepar a corda da vida.

Acredito piamente que algumas línguas (más por sinal), já estão a imaginar que eu tenha subido mais com a boca, e não deixam de ter razão. Sou comunicativa e ganhei muito com isso, pelo menos quero acreditar nisso; ou será que foi o decote que me abriu as portas?

O que é certo, certo é que sou uma boa profissional e não deixo os meus créditos por mãos alheias.

Mas estamos a falar de sorte e não de capacidades intrínsecas do ser humano que podem ser aprimoradas. A sorte ou se tem ou então não há nada a fazer.

Aqui há uns tempos, estava metida num projecto super importante para a minha agência. Era o voto de confiança que me podia fazer subir mais um degrau dentro da hierarquia. Puseram a trabalhar comigo duas pessoas relativamente verdes dentro da empresa: uma rapariga adorável, tipo boneca de porcelana e um rapaz convencido como tudo.

Ao princípio tudo batia certo e entendíamo-nos muito bem. O Hugo conseguia deixar o seu pequeno defeito de lado e a Sónia dizia que sim a tudo.

Estava confortável com a minha equipa e como nestas que ganham não se muda, acomodei-me, até ao dia...
O Hugo chegou todo emproado ao meu gabinete e metralhou:

- Só mesmo uma mulher para ser capaz de tanta incompetência!

Olhei para ele com guilhotinas nos olhos e olhei para a folha de papel que segurava nas mãos. Calculei a quantidade de cortes que podia fazer com ela e reconsiderei. De certeza que estava a referir-se à Sónia, mas aquela pontinha de machismo secava-me a boca.

- Explica...
- Explico?! Um erro destes é típico de uma mulher!
Do alto da minha juventude a caminho dos trinta olhei para a misoginia dele e engatilhei a minha arma de sniper: susti a respiração, reduzi os batimentos cardíacos e...
- Veste lá o teu fato de toupeira e despe o equipamento que nem vais chegar a aquecer. Sabes que não alinho muito bem com estes machismos de qualidade dúbia.

- Como é que é?!
- É igual ao teu só que mais pequeno.

Engasgou-se e lembrou-se que naquela situação eu era a patroa.

[Não teve sorte nenhuma]

Tuesday, March 28, 2006

#21 Anónimo 2

Ao domingo de manhã costumo ir à Concha d'Ouro tomar o pequeno-almoço. Sento-me, peço o meu lanche especial [os melhores do mundo, com tudo e mais alguma coisa], um sumo de laranja natural e no fim um café e um cigarro.Dose energética indicada para um passeio na Foz com os meus patins em linha.

Tenho este ritual entranhado no corpo há já algum tempo e gosto de o fazer sozinha: dá-me espaço para reflectir, estar comigo e com o meu mp3. Interrompo isto quando na noite anterior saí até muito tarde e abusei das pretas; todavia faço sempre o esforço.

Num destes pequenos-almoços senti uma coisa esquisita: a sensação que estava a ser observada. Olhei à minha volta e não consegui localizar a pessoa, ninguém olhava para mim.

Havia no entanto alguém que me chamou a atenção: Um rapaz de óculos escuros, uns Ray Ban clássicos. Podia muito bem ser ele que ao abrigo do negrume das lentes ia regalando a vistinha.
Não pensei mais nisso e fui embora.

No fim-de-semana seguinte voltei a encontrar o rapaz na pastelaria e senti-me novamente observada. 4 domingos seguidos e sempre o mesmo rapaz e a mesma sensação. Já estava a ficar maluca.

Foi então que aconteceu. Estava no meu passeio de patins quando, em frente ao Homem do Leme, sem pré aviso, me aparece o rapaz a patinar ao meu lado. Olhei, ajeitei os óculos de sol e continuei em silêncio durante alguns segundos.

- Posso patinar ao seu lado menina?
- Já está a patinar e contra isso não posso fazer nada.

Corou e calou-se. Ri-me por dentro e tive vontade de dizer mais alguma coisa para quebrar o gelo mas contive-me.

- Costuma fazer muitas vezes este trajecto?
- Tantas quantas as vezes que olhas para mim na Concha.
- Já vi que é muito perspicaz...
- E eu já vi que para além de voyeur, também tem a resposta na ponta da língua...
- Tem dias...
- Bem, se quer um conselho, vá comprar umas rodas novas, que já está a patinar muito.

[Não estava com paciência para conversas de ressaca.]

Monday, February 27, 2006

#20 Paulo

Já não há homens como antigamente. Temos que nos consciencializar que os papéis se misturaram de tal forma que às vezes a confusão é legítima. Quantas vezes nas minhas saídas fico confusa em relação ao género das pessoas; muitas vezes já vos digo.
Estamos a evoluir muito rapidamente para a androginia. Os metrossexuais já se depilam, usam cosméticos para isto e para aquilo e cada vez mais têm cuidado com aquilo que vestem, quando e como o fazem. Enfim, nada contra mas confesso que gosto de um homem de barba rija, que fale grosso [cuspir para o chão é que não].

Uma das coisas que não recrimino é um homem saber cozinhar. Não me considero grande cozinheira [diz quem já provou, que as minhas massas são um must] e agradeço que venham lá a casa cozinhar. E aqui entra o Paulo.

Amigo do meu irmão, um bocadinho mais velho que eu e cozinheiro fantástico. Acho que os homens cozinham muito melhor que nós. Sempre que vejo um homem a cozinhar fico maravilhada: nunca fazem um prato duas vezes da mesma forma; é muita imaginação junta.
Já muita gente tinha gabado os cozinhados do Paulo e resolvi experimentar. Convidei-o lá para casa e ao meu irmão e fizemos grande jantarada. Arroz de pato como nunca comi regado com Duas Quintas, prenda do mano.

Fiquei cliente e prometi ao Paulo que da próxima vez cozinhava eu para ele; troca justa e uma pitada de pimenta na nossa relação até aí sem condimentos.
Daí a uns tempos ele fez o convite e a condição é que eu fosse cozinhar a casa dele. Dei-lhe a lista dos ingredientes e levei os ingredientes secretos comigo; uma miniatura de vodka e uma de bacardi.

Na cozinha mais bem apetrechada que já vi, senti-me em casa. Ele serviu os aperitivos [Vodka Martini - Ah senhor James Bond...] e pensei que era a bebida certa para aquele momento: ele está a entrar nos quarenta e já começa a ter as brancas sem ser calvo.

Dois aperitivos depois estava tudo pronto para misturar: a massa estava al dente e eu já preparava os meus para trincar aquele naco.

- Chega-me o escorredor da massa.
- Este?

O escorredor estava por trás de mim e ele encostou o corpo ao meu. Arrepiei-me, fiquei um momento a olhar para os lábios dele e beijámo-nos. Senti o sabor amargo da vodka a cortar o doce do martini e um ligeiro travo a azeitona. Quando vim à superfície para respirar perguntei-lhe:
- Gostas de massa fria?